quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Labirinto

Eu abro uma porta, e me encontro num labirinto. Eu caminho por ele, e como em todo o labirinto, estou perdido. Mais uma vez eu não encontro a saída. O labirinto é a própria vida. E as portas são os sentimentos, E os pensamentos. Quando eu abro uma porta, eu me deparo com um muro... Eu fecho a porta, e volto para o labirinto. Chego ao fim, e sempre me deparo com um muro... Assim é a minha vida, um labirinto com mil portas a serem abertas e fechadas e do outro lado, apenas muro. Não se acha entrada, nem se acha saída... Como se eu estivesse correndo atrás do próprio rabo, como um cão triste, tentando encontrar a saída que não existe.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

No Escuro

Eu tateio no escuro e não acho... Estou cego, estou mudo, estou surdo, estou paralisado, estou só, de sentidos cerrados... Não sinto o calor de suas mãos quando chego mais perto as minhas mãos de suas mãos. O escuro é tomado por ausências e por silêncios... No escuro, eu sinto uma necessidade imensa de me agarrar a algo ou a alguém para não me perder, para não me machucar, para não me ferir, e estar sempre a salvo de qualquer perigo que a vida e as circunstâncias sempre me apresentam. Há no escuro uma falta de noção imensa do tempo e do espaço... Estando cego, mudo, surdo, paralisado e só, tropeço caio e me machuco... É só no escuro que se fica à deriva, é só no escuro que se fica a Deus dará... A vida no escuro não se vive. Eu não encontro ás suas mãos para ancorar às minhas mãos em suas mãos. Eu preciso ancorar o meu corpo no seu corpo para não me perder. Eu preciso agarrar-me a um local seguro, a uma coisa segura, para não sofrer no escuro, acidente nenhum. É só no escuro que se perde a noção da vida, é só no escuro que se fica à deriva, é só no escuro que se perde a noção do mundo, é só no escuro que se perde a noção de tudo. Tropeço, caio e me machuco...

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Cortar,castrar,capar

Cortar, 
castrar, 
capar a possibilidade desta alegria. 
Cortar, 
castrar, 
capar a possibilidade desta felicidade. 
Simplesmente cortar, 
castrar, 
capar, 
evitar a criação. 
 Quantos beijos, 
quantos abraços, 
quantos carinhos, 
quanto amor, 
quanta paixão, 
quanta alegria, 
são retirados, 
são evitados, 
 são negligenciados 
 ao cortar,
 castrar
e capar uma parte minha. 
Ah, 
 àquelas noites mal dormidas. 
Acordar de madrugada para embalar, 
para ninar meu filho. 
Tomá-lo, 
tê-lo nos braços,
 sentir o cheiro de talco, 
de leite-de-rosas.
 ouvir o riso, 
ver o sorriso estampado na face angelical. 
Depois vê-lo crescer,
 engatinhar, 
balbuciar, 
falar, 
andar, 
correr... 
Abraçá-lo,
 beijá-lo, 
ouvir o seu riso tão doce, 
tão gostoso... 
Ver e ouvi-lo chorar...
 Acalentá-lo, 
consolá-lo  nos momentos de dor e aflição. 
Tomá-lo pelas mãos, 
sair por aí, 
sem hora para chegar. 
Passear no parque, 
vê-lo brincar. 
Tomar sorvete, 
 chupar picolé, 
comer biscoito,
 algodão doce... 
Ser ele, 
 meu filho tão querido,
 tão amado. 
Mas a vida, 
 as circunstâncias,
 fazem-me cortar, 
fazem-me castrar, 
fazem-me capar, 
fazem-me evitar a possibilidade de ter, 
de ser 
e de criar.
 Eu nunca vou ter essa felicidade, 
essa alegria. 
A felicidade
 e a alegria de ouvir o choro primeiro do meu filho 
 saindo do ventre da companheira. 
Colocá-lo no berçário, vê-lo dormir. 
Ver pela primeira vez o seu rosto, 
o seu corpo rosado...
 Ver pela primeira vez, 
o seu sorriso, 
o seu riso... 
Depois levá-lo para casa, 
amá-lo. 
zelar por ele,
 estar por ele, 
ser por ele. 
Mas a vida achou melhor cortar, 
castrar, 
capar essa possibilidade.
 O filho que eu não fiz, 
vive no vão, 
 vive no vácuo, 
vive na brisa, 
vive à deriva. 
Cortar, 
castrar, 
capar essa felicidade... 
Cortar, 
castrar, 
capar essa alegria... 
Simplesmente
 cortar, 
castrar,
capar!