castrar,
capar a possibilidade desta alegria.
Cortar,
castrar,
capar a possibilidade desta felicidade.
Simplesmente cortar,
castrar,
capar,
evitar a criação.
Quantos beijos,
quantos abraços,
quantos carinhos,
quanto amor,
quanta paixão,
quanta alegria,
são retirados,
são evitados,
são negligenciados
ao cortar,
castrar
e capar uma parte minha.
Ah,
àquelas noites mal dormidas.
Acordar de madrugada
para embalar,
para ninar meu filho.
Tomá-lo,
tê-lo nos braços,
sentir o cheiro de talco,
de leite-de-rosas.
ouvir o riso,
ver o sorriso
estampado na face angelical.
Depois vê-lo crescer,
engatinhar,
balbuciar,
falar,
andar,
correr...
Abraçá-lo,
beijá-lo,
ouvir o seu riso tão doce,
tão gostoso...
Ver
e ouvi-lo chorar...
Acalentá-lo,
consolá-lo nos momentos de dor e aflição.
Tomá-lo pelas mãos,
sair por aí,
sem hora para chegar.
Passear no parque,
vê-lo brincar.
Tomar sorvete,
chupar picolé,
comer biscoito,
algodão doce...
Ser ele,
meu filho tão querido,
tão amado.
Mas a vida,
as circunstâncias,
fazem-me cortar,
fazem-me castrar,
fazem-me capar,
fazem-me evitar a possibilidade de ter,
de ser
e de criar.
Eu nunca vou ter essa felicidade,
essa alegria.
A felicidade
e a alegria de ouvir o choro primeiro do meu filho
saindo do ventre da companheira.
Colocá-lo no berçário,
vê-lo dormir.
Ver pela primeira vez o seu rosto,
o seu corpo rosado...
Ver pela primeira vez,
o seu sorriso,
o seu riso...
Depois levá-lo para casa,
amá-lo.
zelar por ele,
estar por ele,
ser por ele.
Mas a vida achou melhor cortar,
castrar,
capar essa possibilidade.
O filho que eu não fiz,
vive no vão,
vive no vácuo,
vive na brisa,
vive à deriva.
Cortar,
castrar,
capar essa felicidade...
Cortar,
castrar,
capar essa alegria...
Simplesmente
cortar,
castrar,
capar!
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