eu me lembro muito bem,
e como!
Ele voltava do trabalho
ou da roça
com seu fusca vermelho ou branco
e o estacionava na garagem...
Meu avô era um homenzinho bem baixo,
de um pouco mais de um metro e cinquenta.
Barrigudo,
mas com o coração de ouro operado...
Vovô entrava em casa,
em Muriaé
cidade cheia de mulher...
Colocava a sua bolsa marrom em cima da mesa
junto com as chaves do carro,
virava o seu rosto,
olhava para mim,
sorria
e assoviava...
Depois se deitava na sua cadeira predileta da sala,
em frente à TV.
Esticava as pernas
e em seu peito eu me deitava.
(O peito do vovô era velho e cabeludo...)
Mas tão gostoso,
tão macio,
tão quentinho...
ele acariciava os meus cabelos
e na maioria do tempo mantínhamos calados,
muito calados...
Segundos depois,
ele docemente se virava para mim
e falava:
“Dadá,
bota a cabeça deste lado do meu peito,
porque o outro é operado...”
Eu botava...
Segundos depois,
nós ríamos,
sorríamos
e ele continuava a acariciar os meus cabelos,
tão negros...
Eu fechava os olhos,
fingindo dormir,
(Eu sempre fui um perfeito fingidor...)
E ele continuava a acariciá-los.
Que momento!
Que gostoso!
Ah, carinho de vovô realmente não tem preço!
Depois crescemos,
envelhecemos.
O tempo passou,
E eu já não cabia no peito do vovô.
(Ah, mas que pena!)
Hoje,
passados tanto tempo,
tantos anos,
eu ainda questiono:
“Porque Diabo mesmo,
Deus criou a morte?"
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